*Por Lucas Barioni Toma
Em minha trajetória como engenheiro de software, trabalhando em diferentes setores e projetos no Brasil e no exterior, aprendi que cada linguagem de programação traz consigo não apenas uma sintaxe, mas uma filosofia de como construir sistemas. Já utilizei Python para análise de dados, Node.js para serviços ágeis, C++ para aplicações de alto desempenho e Go para microsserviços leves.
No entanto, poucas linguagens me impressionaram tanto quanto o Rust, e acredito que seu impacto no desenvolvimento back-end ainda está apenas no começo.
Rust foi projetado para resolver um dilema que há décadas parecia insolúvel: como conciliar máxima performance com segurança de memória? Ao dispensar o garbage collector e introduzir um modelo de “ownership” rigoroso, Rust obriga o desenvolvedor a pensar em concorrência e gerenciamento de recursos já na fase de compilação. O resultado são sistemas que rodam rápido como C++ e, ao mesmo tempo, resistentes a falhas comuns que geram brechas de segurança e altos custos de manutenção.
Essa proposta não é apenas teórica. Nos Estados Unidos, vejo cada vez mais exemplos de companhias que migraram partes críticas de suas plataformas para Rust. O Dropbox reduziu consumo de recursos em componentes de sincronização; o Discord passou a lidar com milhões de conexões simultâneas com maior estabilidade; e a Cloudflare utiliza Rust para reforçar sua camada de segurança e performance em escala global. Até mesmo a Microsoft tem testado a linguagem em projetos ligados ao Windows, visando diminuir vulnerabilidades históricas ligadas à memória.
Esses casos mostram que Rust não é apenas “linguagem da moda”, mas sim infraestrutura estratégica. Em ambientes de nuvem, onde cada milissegundo de latência impacta experiência do usuário e cada consumo extra de CPU gera custos, a escolha da linguagem pode significar milhões de dólares de diferença por ano.
No Brasil, ainda percebo certo ceticismo em relação ao Rust. Parte disso vem da escassez de profissionais experientes e da curva de aprendizado mais íngreme, já que o compilador exige um nível de disciplina arquitetural maior. Mas é justamente esse rigor que, no longo prazo, se transforma em vantagem. Sistemas escritos em Rust tendem a ser mais previsíveis, com menos incidentes em produção e menos horas gastas em “apagar incêndios”.
Costumo comparar o processo de aprender Rust a pilotar um avião moderno. No início, os sistemas de segurança parecem limitadores. Mas, depois de um tempo, entendemos que essas “restrições” existem para evitar acidentes graves e para permitir que voemos mais alto e com mais confiança.
Do ponto de vista de negócios, não se trata de substituir todas as aplicações legadas por Rust, mas de avaliar em quais áreas críticas ele pode trazer vantagem competitiva. Sistemas financeiros de baixa latência, motores de recomendação em e-commerce, serviços de telecomunicação e plataformas de streaming são exemplos claros de onde performance e segurança não são opcionais, são diferenciais de sobrevivência.
Olhando para frente, acredito que a adoção do Rust seguirá o mesmo caminho de tecnologias como Kubernetes ou infraestrutura como código (IaC): começou em nichos altamente técnicos, mas hoje é pilar em empresas globais. Para quem deseja competir em escala internacional, especialmente em padrões já consolidados nos EUA, considerar o Rust não é apenas uma escolha técnica, é uma decisão estratégica.
Em um mercado cada vez mais exigente, onde falhas mínimas podem gerar grandes prejuízos financeiros e reputacionais, Rust representa uma nova forma de pensar software: rápido, seguro e sustentável. E é exatamente essa combinação que acredito que definirá o futuro do desenvolvimento back-end.
Sobre Lucas Barioni Toma
Lucas Barioni Toma é engenheiro de software, formado em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Atua em projetos no Brasil e no exterior, com experiência em desenvolvimento full-stack, integração de frameworks e linguagens, infraestrutura como código, observabilidade e sistemas de alta performance. Já colaborou com empresas de diferentes setores, incluindo finanças, agricultura, e-commerce e organizações globais, trabalhando com linguagens como Python, TypeScript, Rust e Go. Com forte atuação em arquitetura de sistemas, automação e segurança, Lucas se dedica a transformar tecnologia em diferencial competitivo para empresas que buscam escalabilidade, eficiência e inovação.
