Por Dra. Francyne Elias-Piera
A COP30 entrou hoje numa fase crítica, marcada por estagnação temporária das negociações, movimentações políticas de alto nível e um anúncio inédito sobre a COP31. O dia começou com expectativa de novos textos decisórios que não se concretizaram. O documento esperado desde a manhã, que deveria consolidar os principais elementos do chamado “mutirão de decisão”, não foi publicado. À medida que as horas avançaram, ficou claro que o processo estava travado. Sem texto novo na mesa, não havia como iniciar negociações formais.

Esse impasse coincidiu com a chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num movimento incomum para o calendário da COP. Chefes de Estado, em regra, participam apenas da abertura e retornam aos seus países, mas Lula voltou a Belém para uma série de reuniões com grupos regionais e chefes de delegações. A presença dele na cidade acabou, na prática, interrompendo as negociações do dia. Delegados aguardaram a movimentação política para ver se a articulação de alto nível poderia destravar o processo.

A coletiva de imprensa convocada no fim da tarde foi aberta por André Corrêa do Lago, presidente da COP30, que reforçou que os documentos em elaboração estão focados na fase de implementação. A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, anunciou oficialmente a entrada da Alemanha no Fundo Florestas Tropicais para Sempre, com uma contribuição de 1 bilhão de euros. O aporte, esperado desde a semana passada, consolida a Alemanha como um dos pilares financeiros do novo mecanismo.

O plot twist do dia, porém, veio na definição da COP31. Após meses de impasse entre Turquia e Austrália, foi costurado um acordo incomum: a COP31 será realizada em território turco, mas a presidência será australiana. A Turquia oferece a infraestrutura e a Austrália assume o comando formal da Conferência. O desenho ainda precisa da aprovação do grupo regional, já que a Austrália, terceiro maior exportador de combustíveis fósseis do mundo, enfrenta forte pressão internacional. Caso o arranjo seja rejeitado, abre-se a possibilidade da COP31 ocorrer na Alemanha – país-sede da ONU – e ser presidida pelo Brasil, atual presidente do processo.

Mesmo com o bloqueio momentâneo em partes do pacote negociado, houve avanços paralelos. O texto sobre Planos Nacionais de Adaptação foi finalmente publicado no meio da tarde e seguirá para análise nas próximas sessões. Também ocorreu uma coletiva conjunta de ministros latino-americanos reforçando a posição regional sobre o Objetivo Global de Adaptação e defendendo a aprovação dos indicadores ainda nesta COP, conectados a um compromisso robusto de financiamento. O grupo reiterou a necessidade de triplicar os recursos para adaptação – uma demanda constante do Sul Global.
Outro dado relevante do dia é que mais de 80 países já manifestaram apoio explícito a uma eliminação acelerada dos combustíveis fósseis, algo impensável em antigas COPs e que pressiona os países mais dependentes dessa matriz.
A COP30 segue com negociações intensas e imprevisíveis. Os próximos dias serão decisivos para saber se o nível político conseguirá destravar aquilo que os técnicos não conseguiram avançar hoje.
Dra. Fran é fundadora e Presidente do Instituto Gelo na Bagagem, influenciadora digital, especialista em ecologia polar e ESG ambiental. Atua na formação de professores, criação de conteúdos educativos e palestras sobre Antártica, mudanças climáticas e oceanos.
